Realidade Alternativa – Cap. V

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O veículo preto da equipa Alfa disparou com uma bala deixando no ar um fumo cinzento. As marcas na neve suja deixadas pelo arranque subito destoavam com o resto do manto branco que cobria Aveiro.

– Mantenham-na estável. Reportem imediatamente qualquer alteração anormal.

A ordem surgiu via as colunas do rádio UHF que estava instalado junto à imensidão de equipamento branco espalhada pelas paredes e tecto da carrinha.  O sujeito mais magrinho do grupo, o sargento Silva debruçou-se sobre a Joana que descansava mortalmente na turbulência da viagem rápida.  A sua face embebida em sangue foi cuidadosamente limpa pelo sargento. Neste gesto altruista,  reparou que uma das partes da maca térmica estava rasgada. Levantou a cabeça assustado e observou os dados do pequeno monitor do seu lado direito.

– Comandante, 27 graus, mas… estáa descer..  e rápido.. 26.3! A maca térmica não está a funcioar. Que fazemos? Ainda falta pelo menos uma hora de viagem até ao centro de anti-elevação mais próximo.

– Sujeito em estado ascendente critico. Peço instruções.

Do outro lado do rádio UHF surgiu um silêncio momentâneo. O sargento Silva olhou para os olhos do comandante preocupado. Tinha sido informado que a missão era demasiado importante para falhar. Corriam ainda rumores dentro da equipa que obter o corpo daquela mulher seria um ponto de viragem da própria revolução.

– Dêem inicio à anti-elevação. Reportem quando estiver concluído..  Não há margem para erros.

O comandante virou-se para a equipa alfa preocupado assim que ouviu a ordem na rádio. Era impossível realizar o procedimento naquelas condições de maneira segura. Havia falta de equipamento de suporte básico de anti-elevação e o seu pessoal não estava preparado para lidar com as complicações que de certo iriam surgir.

– Ouviram o comando. De que estão à espera? Que ligue eu essa porcaria?

O sargento Silva rapidamente rapou o cabelo de Joana e cobriu a sua cabeça inerte com creme anti-elevatório. De seguida. florestou todo o seu corpo com pequenas agulhas ligadas, cada uma, por finos fios de uma mistura de ouro e cobre até um pequeno conector da máquina de suporte básico de anti-elevação.

– Dando ínicio ao procedimento.

Silva olhou para Joana, como se estivesse à espera de algum sinal de reacção. Apesar de saber que aquele tipo de pensamento era bastante absurdo,  esperava sempre que o corpo se manifestasse. Como em todas as anti-elevações que já tinha assistido e realizado, aquele corpo estava parado, inerte, frágil e morto.  Silva soltou um suspiro fundo e virou-se para o monitor maior.

– Comandante. Procedimento concluído.

– Óptimo. Qual o resultado?

– Conseguimos salvar 37 por cento das suas memórias.  Lamento.. mas receio que tudo o resto já foi elevado.

– Merda.

Devagar virou-se para o monitor principal e esperou alguns segundos. Rodou alguns botões de côr azul escura enquanto várias vultos esborratados de cinzento deslizavam pelo ecrã. Por fim, parou de maneira indecisa num vulto mais difuso.

– Doutora Joana Gomes?

O silêncio invadiu a carrinha da equipa Alfa, enquanto todas as caras escutavam atentamente a estatíca das colunas do equipamento anti-elevatório.

– Sim?

Realidade Alternativa – Capítulo I

Quando Joana olhou para dentro daquele armário nunca pensou em escavar tristezas tão antigas. Procurava aquilo que não queria encontrar, mas as palavras que soavam ao longe espremiam a sua curiosidade, fazendo-a transbordar para níveis enlouquecedores. As gavetas saltavam no ar já esvaziadas do seu conteúdo e caíam no chão à medida que os lugares de esconderijo diminuiam.

Pegou numa peça de roupa enrolada e atirou com força para a imagem da outra sala que se transformava de maneira absurda. Apeteceu-lhe gritar, mas por respeito, lançou a pergunta calmamente: – Avô, não o consegui encontrar. Procurei dentro do armário e não vejo nada. Onde diabo está?

A velha imagem oscilou por momentos, denotando alguma perturbação pelo desenrolar da demanda.    -Procura melhor Joana.  Eu recordo-me desse armário e tenho a certeza que o coloquei nesse lugar.

O armário estava despido.  Excluíndo qualquer esconderijo digno de um filme norte-americano não havia qualquer hipótese de existirem mais segredos. – Desisto avô.  Não encontro, talvez a tua memória esteja com algum defeito.

– A minha memória poderá não estar como outrora, lembra-te que tudo não foi perfeito. Mas tens que o encontrar.

Joana voltou as costas para a imagem com um ar de desalento, acordou as memórias mais antigas que tinha do seu avô enquanto este era vivo e real e pegou no comando.

– Desculpa avô. Vou procurar melhor, mas preciso de o fazer sozinha.

Premiu o botão e a imagem desapareceu.