Inspiração vodkiana

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Realidade Alternativa – Capítulo II

O Instituto de Consciência ficava localizado na parte mais remota da imaginação de qualquer pessoa.  Apesar de ser imensamente povoado, com um tráfego constante de cientistas, engenheiros e por vezes pessoas ligadas a ciências ocultas, o local escolhido pelo governo não poderia ter sido o mais solitário e pior para o doutor Gomes.  Habitava no complexo dois a vários andares abaixo do solo gelado e deserto. Partilhava o quarto com o seu colega e melhor amigo, mas sentia falta do amor da sua vida e da sua filha,  As poucas vezes que estava com elas era quando o Instituto o libertava do seu importante trabalho. Várias eram as ocasiões em que passavam meses antes de ver os olhos azuis das suas duas mulheres, como gostava de lhes chamar perante os amigos.

– Gomes, tens contigo o relatório neuronal da paciente que entrou ontem à noite?

Acordou do pensamento alegre que absorvia todos os seus neurónios. Desde Setembro que não abraçava as suas duas mulheres,  mas o presente de Natal que comprou iria compensar a sua ausência. Faltavam apenas três dias para a época do ano em que o Instituto de Consciência não colocava qualquer barreira em libertar os seus mais inteligentes e proeminentes cientistas para junto das suas famílias.

– Está no ficheiro da reduzida probabilidade na pasta dos 27 graus.  Queres que te ajude? Este é complicado, entrou ontem em fase de elevação. Acho que não iremos conseguir salvar tudo.

– Eu trato disto, Gomes. Vou levá-lo para baixo, afinal lembra-me a minha tia. Vou tratá-la como tal.Temos autorização da familia?

– Err… Ainda…

O telemóvel interrompeu a resposta certa deixando no ar o som de um antigo êxito musical, fazendo com que os vários vultos brancos que circulavam na sala enorme e cinzenta, centrassem a sua atenção em tão estridente toque. Alguns até esboçavam um sorriso, outros abanavam-se numa tentativa inóqua de dançar. Os espelhos que rodeavam a sala reflecitam a situação rídicula enquanto uma luz branca abraçava cada cara e cada indíviduo. Fantasmas de bata branca que se agarravam ao mundo em raras visitas.

Gomes atendeu a chamada.

– Joana? Sabes que não me podes telefonar a esta hora. Espero que seja mesmo importante.

– Oh Alberto! E um “Olá, como estás”? Não te parecia melhor? De qualquer maneira, isto é urgente!. Encontrei-o. O meu avô levou-me ao caminho certo. Finalmente! Não é uma óptima notícia?

Gomes deixou cair o telemóvel aterrorizado com o que ouvia da sua amada de olhos azuis. Não era possível imaginar cenário tão assustador. Tinham passado tantos anos e agora, tão perto da verdade, esta inspirava-lhe medo.  O aparelho desmembrado ainda soltava vozes, Gomes, gentilmente apanhou-o do mármore cinzento:

– Vou já a caminho querida. Não abras antes de eu chegar.

Desligou. Virou-se para o Tomás, o seu melhor amigo:

– Esquece a tua pseudo-tia. Vai buscar o ficheiro do avô da Joana e envia-mo para o e-mail. Necessito de todos os detalhes sobre a sua morte. Telefono-te quando chegar a Aveiro.

Realidade Alternativa – Capítulo I

Quando Joana olhou para dentro daquele armário nunca pensou em escavar tristezas tão antigas. Procurava aquilo que não queria encontrar, mas as palavras que soavam ao longe espremiam a sua curiosidade, fazendo-a transbordar para níveis enlouquecedores. As gavetas saltavam no ar já esvaziadas do seu conteúdo e caíam no chão à medida que os lugares de esconderijo diminuiam.

Pegou numa peça de roupa enrolada e atirou com força para a imagem da outra sala que se transformava de maneira absurda. Apeteceu-lhe gritar, mas por respeito, lançou a pergunta calmamente: – Avô, não o consegui encontrar. Procurei dentro do armário e não vejo nada. Onde diabo está?

A velha imagem oscilou por momentos, denotando alguma perturbação pelo desenrolar da demanda.    -Procura melhor Joana.  Eu recordo-me desse armário e tenho a certeza que o coloquei nesse lugar.

O armário estava despido.  Excluíndo qualquer esconderijo digno de um filme norte-americano não havia qualquer hipótese de existirem mais segredos. – Desisto avô.  Não encontro, talvez a tua memória esteja com algum defeito.

– A minha memória poderá não estar como outrora, lembra-te que tudo não foi perfeito. Mas tens que o encontrar.

Joana voltou as costas para a imagem com um ar de desalento, acordou as memórias mais antigas que tinha do seu avô enquanto este era vivo e real e pegou no comando.

– Desculpa avô. Vou procurar melhor, mas preciso de o fazer sozinha.

Premiu o botão e a imagem desapareceu.