Realidade alternativa – Cap. IV

Capítulos anteriores:

Uma pequena gota desvaneceu na sua face trémida à medida que se rendia à acção gravítica do acontecimento mortal. Dezenas de bons momentos na companhia da Joana dançavam na mente de Gomes, enquanto os braços não largavam o seu corpo imóvel.

O silêncio gelado que se sentia naquela sala foi interrompido pelo som da música antiga do seu telemóvel quase inutilizado. Gomes lentamente atendeu a chamada:

– Gomes, enviei-te o relatório do avô da Joana como pediste. Como é que nunca me contaste isto? É extraordinário…

– Tomás… a Joana morreu.

O silêncio invadiu a ligação.  Tomás ainda pensou em reconfortar o seu amigo, mas o seu instinto ciêntifico disparou:

– Qual a temperatura dela? Já verificaste a temperatura? Rápido! Vou já enviar uma equipa para aí. Estás em tua casa certo?

– Certo. Mas…

– Rápido. Aquece-a. A equipa estará aí não tarda nada.  Estão a montar o equipamento na carrinha, eu vou com eles. Tu não deves estar em condições de realizar o procedimento.  Até já amigo!

Gomes correu para o pequeno armário da casa de banho e facilmente encontrou o termómetro branco e digital. Concentrado no seu objectivo nem reparou que todo o resto da casa estava caótico.  Chegou um pequeno aquecedor ao corpo de Joana para transmitir algum calor e abraçou-a. Não era o facto de o consumo de electricidade estar limitado nas horas nocturnas que o iria impedir de salvar a sua Joana. Finalmente, olhou para termómetro que cruelmente mostrava valores decrescentes… 29ºC,  28ºC ..  27º C. 27ºC. Tinha parado nos 27ºC.  Gomes sentiu-se aliviado por alguns momentos. Era a temperatura minima capaz de assegurar que o procedimento era feito de maneira segura.  Depois de se certificar durante alguns minutos que a temperatura estava estável,  pensou nas vastas memórias que tinha dos bons momentos passados com a Joana. Relembrou detalhes do casamento que até agora pareciam insignificantes. Recordou-se das belas tardes passadas junto à ria a picar um gelado de cor azul, onde ambos tentavam adivinhar o sabor de tão deliciosa iguaria.  O sentimento profundo de ter ainda tanto para partilhar  fez arder a sua alma e por mais que custasse tinha que a salvar. Era impossível viver sem ela.

A porta do apartamento saltou para o chão coberto de sangue quando vários homens vestidos de cinzento escuro entraram. Faziam lembrar nuvens carregadas de chuva que se moviam na rapidez de um vento de tempestade.

– Somos a equipa Alfa Dr.Gomes.  Fomos enviado de urgência para esta localização. Conseguiu manter a temperatura?

Gomes na supresa da entrada abrupta apenas consegui soltar um breve acenar de cabeça. Dirigiu o olhar para cada um dos elementos da equipa mas não conseguiu reconhecer nenhuma das faces.

Um dos sujeitos mais magrinhos do grupo dirigiu-se ao corpo de Joana e delicadamente retirou um pequeno dispositivo estranho da forma de uma lâmpada escura do bolso do colete cinzento. Com alguma frieza colocou o objecto na nuca de Joana. Ouviu-se um silvo breve à medida que a pequena agulha que saíu do dispositvo penetrou nos tecidos inertes:

– Confirmado. Temperatura 27ºC.

– Óptimo. Levem o sujeito para baixo rapidamente. Não queremos perde-la.

Os vários elementos da equipa, numa ligeireza digna de altos praticantes de artes marciais, rapidamente colocaram o corpo em segurança numa maca térmica. Gomes estranhou a maneira como aqueles menbros do Instituto da Consciência operavam.  Faziam lembrar soldados especializados e não a equipa de cientistas que estava à espera.

– Mas como conseguiram chegar aqui tão rápido? São várias horas até Aveiro. E onde está o Tomás? Quem são ..

Gomes não chegou a obter resposta.  Uma seca pancada na sua nuca fê-lo desmaiar no chão coberto de sangue da sua Joana.

3 thoughts on “Realidade alternativa – Cap. IV

  1. Caro Pedro,

    Acho que a tua realidade alternativa está naquela fase em que não é passível de se comentar! Surge apenas a vontade de ler mais e mais capítulos para perceber no que estão Joana e Gomes metidos! Aliás, considero uma verdadeira tortura aos leitores do teu blog e seguidores dos diferentes capítulos da “Realidade Alternativa” que a história não se desenrole com maior velocidade…Por outro lado até te percebo, assim fidelizas disfarçadamente leitores e leitoras de uma ficação que ainda não percebi muito bem se é romance, se é uma história de acção, talvez com uma pitada de ficção policial ou se é impossível indissociar tudo isto de uma boa história, bem escrita, surpreendente a cada palavra, linha ou parágrafo…..vou ficar a aguardar mais…

  2. Minha cara Madalena,

    Muito obrigado pelo comentário, mas o principal objectivo não é fidelizar “clientes” :), como podes compreender. Mas é sempre bom ouvir (ler) feedback. Prometo continuar.

  3. Pingback: Realidade Alternativa - Cap. V « Pedro Claro

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s