Mitos pré-natais

Numa conversa animada onde descobri que uma colega estava grávida, surgiu o tema da mítica agulha pendurada num fio como método para descobrir o sexo do bébé.  Achei piada ao misto de brincadeira e seriedade com que o assunto foi abordado. A conversa seguiu com uma lista infidável de métodos pseudo-científicos, passando pelo planeamento adequado ao momento da concepção.  A variedade era tanta que achei por bem resumir tudo para deleite das futuras mamãs e futuros papás que poderão passar por este blog.

A. Planeamento (ou como escolher o sexo do futuro bébé)

1. Método chinês

Descrição/Metodologia:  Primeiro é necessário calcular a idade lunar da mãe. Se a mãe tiver nascido nos meses compreendidos entre Março a Dezembro basta acrescentar um (1) à idade, caso contrário a idade lunar é igual à idade real.  Verifica-se se esta idade é impar ou par. Depois é só saber qual o mês onde se vai dar inicio à obra (leia-se concepção) e verificar se este é para ou impar. Se ambos os números forem pares ou ímpares será uma menina. Caso contrário (um ser par e outro impar) será um menino.

Exemplo: Mãe tem 27 anos e nasceu em Setembro (idade lunar = 28 anos -> par).  O mês de concepção foi Maio (5 -> impar), logo será menino.

Avaliação criteriosa do método: Sem comentários, parece-me demasiado “astrólogo” para o meu gosto.

2.  Posição sexual e as características dos espermatozóides.

Um facto científico é que os espermatozóides com cromossoma X são um pouquinho mais pesados do que os Y, no entanto nunca foi provado que este facto tenha alguma influência na escolha do bébé. Ou seja, não vale a pena andar a fazer posições estranhas simplesmente para ter uma menina ou menino. A não ser simplesmente para ter novas experiências…

Avaliação criteriosa do método: Parece-me uma possibilidade muito remota. No entanto a parte das posições novas parece-me bastante bem 😉

3. Vinagre e bicabornato de sódio

A teoria é usar uma mixórdia de vinagre com água (menina) ou bicabornato de sódio e água (menino) e lavar o corpo e outras partes antes da concepção.

Avaliação criteriosa do método: Os pseudo defensores da teoria argumentam que isto tem tudo a ver com o pH. Honestamente, penso que as probabilidades de ter sexo e qualquer tipo de bébé depois da futura mãe se lavar com tais líquidos são nulas.

B. Descobrir o sexo do bébé

1. Agulha

Uma agulha pendurada num fio e colocar sobre a mão (ou barriga) da futura mãe. Se a agulha se mexer para os lados é menino, se for em circulos será menina.

Avaliação criteriosa do método:  Agulhas? Nahhh…

2.  Pêlos nas pernas

A teoria é que se os pêlos começarem a crescer mais rápido que o normal, será um rapaz. (Será da testosterona?)

Avaliação criteriosa do método: Parece-me plaúsivel, visto que poderá existir alguma influência da testosterona do bébé masculino. No entanto, recomendo vivamente uma depilação mais frequente caso isto aconteça…

3. Comida

Se a futura mãe anseia por doces (gelados, chocolates, bolachas, bolos, pastéis de nata, mel,  ou rebuçados de coco) então é uma menina, caso seja por comida salgada então será um menino.

Avaliação criteriosa do método:  Parece-me mais que um excesso de salgados ou de doces trará um parto mais doloroso devido ao barrigudo que irá sair.

4. Forma da cara

Se a cara da futura mãe parecer mais redonda que o normal muito provavelmente será uma menina.

Avaliação criteriosa do método: Ou então abusou nos doces…

5. Peso do pai

Caso o pai (isto se se souber quem é o pai) ganhe uns bons quilos a mais então será uma menina, caso contrário será um rapaz.

Avaliação criteriosa do método: Muito provavelmente quererá dizer que o pai também andou a abusar dos doces ou dos salgados.

A única forma:

Esperar pelas oito semanas e injectar uns ultrassons para dentro da barriguinha. Olhar para a máquina e tentar verificar se aquilo que está entre as pernocas do(a) miúdo(a) não é um erro da máquina ou um insecto que esbarrou no ecrã.

Realidade alternativa – Cap. IV

Capítulos anteriores:

Uma pequena gota desvaneceu na sua face trémida à medida que se rendia à acção gravítica do acontecimento mortal. Dezenas de bons momentos na companhia da Joana dançavam na mente de Gomes, enquanto os braços não largavam o seu corpo imóvel.

O silêncio gelado que se sentia naquela sala foi interrompido pelo som da música antiga do seu telemóvel quase inutilizado. Gomes lentamente atendeu a chamada:

– Gomes, enviei-te o relatório do avô da Joana como pediste. Como é que nunca me contaste isto? É extraordinário…

– Tomás… a Joana morreu.

O silêncio invadiu a ligação.  Tomás ainda pensou em reconfortar o seu amigo, mas o seu instinto ciêntifico disparou:

– Qual a temperatura dela? Já verificaste a temperatura? Rápido! Vou já enviar uma equipa para aí. Estás em tua casa certo?

– Certo. Mas…

– Rápido. Aquece-a. A equipa estará aí não tarda nada.  Estão a montar o equipamento na carrinha, eu vou com eles. Tu não deves estar em condições de realizar o procedimento.  Até já amigo!

Gomes correu para o pequeno armário da casa de banho e facilmente encontrou o termómetro branco e digital. Concentrado no seu objectivo nem reparou que todo o resto da casa estava caótico.  Chegou um pequeno aquecedor ao corpo de Joana para transmitir algum calor e abraçou-a. Não era o facto de o consumo de electricidade estar limitado nas horas nocturnas que o iria impedir de salvar a sua Joana. Finalmente, olhou para termómetro que cruelmente mostrava valores decrescentes… 29ºC,  28ºC ..  27º C. 27ºC. Tinha parado nos 27ºC.  Gomes sentiu-se aliviado por alguns momentos. Era a temperatura minima capaz de assegurar que o procedimento era feito de maneira segura.  Depois de se certificar durante alguns minutos que a temperatura estava estável,  pensou nas vastas memórias que tinha dos bons momentos passados com a Joana. Relembrou detalhes do casamento que até agora pareciam insignificantes. Recordou-se das belas tardes passadas junto à ria a picar um gelado de cor azul, onde ambos tentavam adivinhar o sabor de tão deliciosa iguaria.  O sentimento profundo de ter ainda tanto para partilhar  fez arder a sua alma e por mais que custasse tinha que a salvar. Era impossível viver sem ela.

A porta do apartamento saltou para o chão coberto de sangue quando vários homens vestidos de cinzento escuro entraram. Faziam lembrar nuvens carregadas de chuva que se moviam na rapidez de um vento de tempestade.

– Somos a equipa Alfa Dr.Gomes.  Fomos enviado de urgência para esta localização. Conseguiu manter a temperatura?

Gomes na supresa da entrada abrupta apenas consegui soltar um breve acenar de cabeça. Dirigiu o olhar para cada um dos elementos da equipa mas não conseguiu reconhecer nenhuma das faces.

Um dos sujeitos mais magrinhos do grupo dirigiu-se ao corpo de Joana e delicadamente retirou um pequeno dispositivo estranho da forma de uma lâmpada escura do bolso do colete cinzento. Com alguma frieza colocou o objecto na nuca de Joana. Ouviu-se um silvo breve à medida que a pequena agulha que saíu do dispositvo penetrou nos tecidos inertes:

– Confirmado. Temperatura 27ºC.

– Óptimo. Levem o sujeito para baixo rapidamente. Não queremos perde-la.

Os vários elementos da equipa, numa ligeireza digna de altos praticantes de artes marciais, rapidamente colocaram o corpo em segurança numa maca térmica. Gomes estranhou a maneira como aqueles menbros do Instituto da Consciência operavam.  Faziam lembrar soldados especializados e não a equipa de cientistas que estava à espera.

– Mas como conseguiram chegar aqui tão rápido? São várias horas até Aveiro. E onde está o Tomás? Quem são ..

Gomes não chegou a obter resposta.  Uma seca pancada na sua nuca fê-lo desmaiar no chão coberto de sangue da sua Joana.