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Uma pequena gota desvaneceu na sua face trémida à medida que se rendia à acção gravítica do acontecimento mortal. Dezenas de bons momentos na companhia da Joana dançavam na mente de Gomes, enquanto os braços não largavam o seu corpo imóvel.
O silêncio gelado que se sentia naquela sala foi interrompido pelo som da música antiga do seu telemóvel quase inutilizado. Gomes lentamente atendeu a chamada:
- Gomes, enviei-te o relatório do avô da Joana como pediste. Como é que nunca me contaste isto? É extraordinário…
- Tomás… a Joana morreu.
O silêncio invadiu a ligação. Tomás ainda pensou em reconfortar o seu amigo, mas o seu instinto ciêntifico disparou:
- Qual a temperatura dela? Já verificaste a temperatura? Rápido! Vou já enviar uma equipa para aí. Estás em tua casa certo?
- Certo. Mas…
- Rápido. Aquece-a. A equipa estará aí não tarda nada. Estão a montar o equipamento na carrinha, eu vou com eles. Tu não deves estar em condições de realizar o procedimento. Até já amigo!
Gomes correu para o pequeno armário da casa de banho e facilmente encontrou o termómetro branco e digital. Concentrado no seu objectivo nem reparou que todo o resto da casa estava caótico. Chegou um pequeno aquecedor ao corpo de Joana para transmitir algum calor e abraçou-a. Não era o facto de o consumo de electricidade estar limitado nas horas nocturnas que o iria impedir de salvar a sua Joana. Finalmente, olhou para termómetro que cruelmente mostrava valores decrescentes… 29ºC, 28ºC .. 27º C. 27ºC. Tinha parado nos 27ºC. Gomes sentiu-se aliviado por alguns momentos. Era a temperatura minima capaz de assegurar que o procedimento era feito de maneira segura. Depois de se certificar durante alguns minutos que a temperatura estava estável, pensou nas vastas memórias que tinha dos bons momentos passados com a Joana. Relembrou detalhes do casamento que até agora pareciam insignificantes. Recordou-se das belas tardes passadas junto à ria a picar um gelado de cor azul, onde ambos tentavam adivinhar o sabor de tão deliciosa iguaria. O sentimento profundo de ter ainda tanto para partilhar fez arder a sua alma e por mais que custasse tinha que a salvar. Era impossível viver sem ela.
A porta do apartamento saltou para o chão coberto de sangue quando vários homens vestidos de cinzento escuro entraram. Faziam lembrar nuvens carregadas de chuva que se moviam na rapidez de um vento de tempestade.
- Somos a equipa Alfa Dr.Gomes. Fomos enviado de urgência para esta localização. Conseguiu manter a temperatura?
Gomes na supresa da entrada abrupta apenas consegui soltar um breve acenar de cabeça. Dirigiu o olhar para cada um dos elementos da equipa mas não conseguiu reconhecer nenhuma das faces.
Um dos sujeitos mais magrinhos do grupo dirigiu-se ao corpo de Joana e delicadamente retirou um pequeno dispositivo estranho da forma de uma lâmpada escura do bolso do colete cinzento. Com alguma frieza colocou o objecto na nuca de Joana. Ouviu-se um silvo breve à medida que a pequena agulha que saíu do dispositvo penetrou nos tecidos inertes:
- Confirmado. Temperatura 27ºC.
- Óptimo. Levem o sujeito para baixo rapidamente. Não queremos perde-la.
Os vários elementos da equipa, numa ligeireza digna de altos praticantes de artes marciais, rapidamente colocaram o corpo em segurança numa maca térmica. Gomes estranhou a maneira como aqueles menbros do Instituto da Consciência operavam. Faziam lembrar soldados especializados e não a equipa de cientistas que estava à espera.
- Mas como conseguiram chegar aqui tão rápido? São várias horas até Aveiro. E onde está o Tomás? Quem são ..
Gomes não chegou a obter resposta. Uma seca pancada na sua nuca fê-lo desmaiar no chão coberto de sangue da sua Joana.
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